segunda-feira, junho 02, 2014

Quando você é universitário, há certo prazer em afirmar que você não se importa com as coisas acadêmicas. Não ler os textos, atrasar os trabalhos, estudar pouco para as provas -- esses são comportamentos absolutamente comuns a todo mundo que põe os pés numa faculdade. Ninguém quer ser o otário que faz tudo, que realmente se importa. E é engraçado como isso se estende a quase tudo na vida.

Num relacionamento, mesma coisa. Há um discreto charme burguês em não se importar muito, em não se mostrar completamente disponível. Freud deve ter falado sobre isso em algum livro que não li; nós evitamos ao máximo ser a pessoa que se entrega totalmente, ao passo que temos dificuldade em lidar com quem nos ama sem moderação. Na verdade, nós calejamos para viver qualquer coisa que exija falta de fronteiras.

Acho que tem muito mais coisa envolvida nisto que o fator social. Há, nisso de valorizar o descaso do outro e de si, certo instinto aguçado de autopreservação. Shakespeare e a indústria pop podem nos ter ensinado o amor romântico, mas não conseguiram nos libertar do medo de sofrer numa relação a dois (ou a três, ou a quatro, quem sou eu para limitar); como nos doar integralmente ao mesmo sentimento que matou Julieta, Desdêmona e Marilyn Monroe? Ninguém quer baixar todas as guardas, expôr todas as fraquezas. Porque é isso que acontece quando admitimos que -- sim, nos importamos muito, não somos e nunca seremos tão blasé quanto ambicionamos ser.

Aqui cabe a autocrítica. Também sou desonesto com as pessoas e comigo mesmo; também finjo não me importar com coisas que na verdade me são caríssimas, apenas para me manter numa posição confortável em alguma situação. Claro, devo ser parte da geração mais covarde e não fujo muito do estereótipo dela. Mas nem por isso deixo de me perguntar: qual a hora de abandonar o medo da sinceridade e os comportamentos fingidos? Quando seremos reais?

terça-feira, maio 27, 2014

No que concerne à reflexão sobre relacionamentos, urge saber distinguir a diferença básica entre três conceitos primordiais: o amor, a paixão e o fogo no rabo.

Sério. Fosse eu acadêmico de psicologia, toda minha tese seria baseada nessa frase. Como não sou, vou tentar desenvolver estes convenientes conceitos. Serve para a vida. Minhas referências são apenas as minhas experiências diárias de humilhação e derrota existencial.

Amor eu não sei o que é, mas basta ver as letras do Chico Buarque pra saber que não é coisa boa. Talvez pela necessidade de amor romântico promovida pela cultura pop (sim, é duro admitir, mas a Britney Spears tem sua parcela de culpa), saímos por aí com o único objetivo de: encontrar o amor. Na busca pelo mozão-ideal, nos desiludimos com o mozão-empírico, e acabamos morrendo numa overdose de Nutella e de filmes como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Evite.

Paixão é quando você fica verdadeiramente obcecado pelo cidadão. Quando você, sem perceber, muda seu dekstop para fotos com baixa resolução da pessoa amada. Quando você passa a relacionar qualquer assunto ou tema em voga na atualidade ao jovem em questão ("Meu Deus, preciso avisar a ele da crise do petróleo no Oriente Médio!"). Geralmente dura em torno de 3 dias a 3 meses (dados reais). Tem mais a ver com dad/mom issues que com a pessoa em si, mas é bem prejudicial. Evite.

Fogo no rabo é talvez o fenômeno mais comum dessa tríade. Beyoncé e Marquês de Sade firmaram cada um toda uma carreira só abordando este tema, então não há muita necessidade de discorrer sobre. Como é algo que pode ser facilmente confundido com os outros dois conceitos já citados -- a gente nunca sabe com qual extremidade do corpo está pensando --, precisamos analisar tudo muito bem. Deus sabe a quantidade de coisas pouco edificante que fazemos só por acúmulo de fogo. Dito isto, reflitamos: se você, após ~confraternizar~ com o cidadão, sentir apenas vontade de ir para casa com um pano preto cobrindo a cara, tal qual um black bloc numa manifestação na Avenida Paulista, não se engane; é fogo no rabo.

Poderia falar longamente sobre isso (é muita mágoa), mas rola toda uma preguiça. Na próxima aula iremos aprender a diferenciar o mozão-ideal do empírico e queimar nossos exemplares do Nicholas Spark.

segunda-feira, maio 26, 2014

Acho que fico meio retardado sempre que alguém demonstra interesse por mim. Provavelmente é só medo da solidão ou qualquer coisa do tipo, mas sempre que alguém insiste em sair mais de uma vez comigo, perco minhas habilidades motoras e começo a formular frases incoerentes e desnecessárias no Whatsapp.

Não que eu seja um Jovem Werther que se apaixona no primeiro elogio que recebe -- ok, isso é discutível. Mas é que sempre que alguém se interessa por mim, eu começo a querer me interessar pela pessoa também. Geralmente dá certo: fico dias, às vezes semanas, obcecado pelo cidadão, pensando no que ele deve estar pensando, se ele já está me achando awkward (questionamento frequente). Óbvio que isso é muito pouco saudável, mas Tom Hansen moldou o meu caráter.

No final das contas é sempre a mesma coisa: vergonha, amargura, humilhação. O cansaço de estar sempre só, a vontade de viver coisas novas, a inveja do Tom e da Summer nos primeiros dos 500 dias -- tudo isso provoca em mim um efeito bizarro, como uma menina nervosa num recital da 5ª série. Conversando com alguns amigos há um tempo, concluí que devo ser mais fierce, vislumbrando, claro, o exemplo da esposa do Jay-Z. Fácil na thesis, difícil na práxis: se tem algum cara a fim de mim, eu não sei fazer muito mais além de me constranger, de o constranger, de nos constranger. Aceito conselhos e tapas na cara, necessariamente nessa ordem.

sexta-feira, maio 23, 2014

Minha principal técnica de sedução é tentar esquecer que eu sinto atração pela pessoa e seguir com a vida. Evidentemente isso não dá certo e estou sempre dando constrangedores likes em fotos que não deveriam ser curtidas.

Mas eu não quero falar sobre isso. Quero falar sobre o rapaz que eu conheci há três dias numa exposição. Não sei se tenho uma percepção muito boa das coisas ou se meu ego que é grande demais, mas logo nas primeiras frases que ele me dirigiu, já saquei que ele estava a fim de mim. Long story short: me levou pra casa e saí com ele nos dois dias seguintes.

Claro que, pela minha enorme disponibilidade (três dias seguidos, Bertonie? Really?), o cidadão já vem exibindo visíveis sinais de desinteresse por mim. O que me leva a uma indagação a ser respondida unicamente por TCCs na área de psicologia: por que as pessoas tem certa repulsa às coisas fáceis e/ou disponíveis? O que minha prima quis dizer ao me falar "Se valoriza, homem!", após eu expôr todo o drama que é ser eu?

Vamos discutir e achar uma solução para isso, porque já peguei a discografia de Maria Bethânia toda pra ir ouvindo nesse final de semana.